Repetição
Todo eu sou música,
Música, Música, Música...
Não tenho em mim senão música.
Mesmo quando escrevo poesia, escrevo música.
Os sons, as harmonias irrompem,
Penetram por todo o meu esqueleto,
Numa só pancada - Pam!
Abatem-me para o chão.
Caio, resvalo e rebolo
Em círculos musicais,
Em que melodias insistentes persistem,
Repetem-se numa continuidade eterna.
Mais força, mais dinâmica, mais mais!
É Molto Allegro, Presto, Prestissimo!
Em dissonâncias menores entram as trompas,
Vão belicosas, sem pompa, nem circunstância.
Num crescendo fortissimo,
Afugentam toda a orquestra,
Deixam-me sozinho comigo,
E aí: um oboé
Que maldito, retorna com o mesmo tema,
Nem modula, nem varia.
Vai repetir sempre e sempre,
E cresce de novo!
E eu? E eu? Eu que chore,
Que cante, que bata!
Numa violência indigna.
Pum, Pum, Pam! Bravo Maestro!
Então, a cortina desce,
Chovem aplausos,
Porém a música,
Essa não pára! É eterna!
21/06/2011
terça-feira, 12 de julho de 2011
Repetição
Depois de várias insistências nomeadamente do Professor Leitão Rodrigues e do Branquinho cedo. Apesar de não ser, de forma alguma, nenhum dos poetas deste blog (aliás considero que por certa ironia este poema denuncia mesmo isso), publico este poema, que é parte dum conjunto de vários que se denominam de Auto-Retrato.
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Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarFico contentíssimo por aqui ver publicado um seu poema, que devo confessar que é sem dúvida um dos que mais gosto, considero-o absolutamente delicioso, apenas lamento que não se dedique mais à poesia, é um grande desperdício, este poema é prova disso, as subtilezas e a riqueza do mesmo são inesgotáveis, contudo permita-me fazer a minha análise do poema, pessoal por certo, defeituosa sem dúvida, insuficiente obviamente, mas penso que útil, uma vez que este poema não é de todo imediato nem simples.
ResponderEliminarComeço apenas por denunciar aquilo que mais me impressionou a riqueza de figuras de estilo, eis as que eu encontrei:
v1 - Metáfora;
v3 - Hipérbole;
e1 - Anáfora;
v6 - Metáfora e Hipérbole;
v7 - Onomatopeia;
v8 - Personificação e Hipérbole;
v9 - Enumeração consequente;
v11 - Adjectivação e Aliteração;
v12 - Antítese;
v13 - Três Pleonasmos (!!!), Hipérbole e Anáfora;
v14 - Gradação crescente;
v15 - Pleonasmo;
v16 - Ironia;
v17 - Adjectivação;
v18 - Aliteração e Hipérbole;
v19 - Pleonasmo;
v20 - Ironia;
v21 - Personificação;
v22 - Aliteração;
v23 - Anáfora
v25 - Repetição;
v26 - Gradação crescente;
v28 - Onomatopeia;
v30 - Metáfora.
Agora o menos perceptível:
O Título - Denuncia à partida o tema, apesar de este não ser perceptível no início do poema, mas de forma clara e cada vez mais intensa vai sendo acentuado, particularmente apartir da 3ª quadra, "Repetem-se numa continuidade eterna". Todo o poema, evidencia o drama dum músico, que está constantemente, quer queira quer não queira, a pensar em música, da mesma forma que por muito que não tentemos pensar em algo a única forma de anular um pensamento é de fazê-lo com um outro pensamento, logo podemos mudar os pensamentos, mas nunca acabar de vez com eles. Nesta alegoria, que é este poema, o sujeito poético leva até ao extremo uma "melodia", que se repete até à força total e plena, no entanto do caos e da destruição, ela de novo aparece, não há lugar para o nada.
Agora o que interessa - Repetição é um termo musical, usado, escrito e adquirido. No entanto, aquele que a meu ver é o ponto central deste poema, o seu mais genial pormenor, está na quinta estrofe, na qual toda a orquestra é "afugentada" e o eu fica "sozinho", isto é a melodia abandonou-o, está livre, usa a meio do quarto verso ":", que simbolizam gramaticalmente o que todos bem sabem (ou pelo menos deveriam saber...), contudo em linguagem musical, simbolizam estes dois pontos - Repetição, portanto gramaticalmente estamos perante um anúncio, que em linguagem musical foi já anunciado (isto é o anunciador é já de si o próprio anúncio(!!!!)), na altura em que aparentam ter terminado os sons, surge então, em reforço com o título, a indicação de repetição, e desta forma "retorna" o desespero, que "não pára".
É também de certa forma visível uma denúncia do tema na primeira estrofe, a palavra "música" é REPETIDA nem mais, nem menos do que seis vezes...
De entre muitas coisas que queria destacar, quero só acrescer, no tal culminar dos dois pontos, existe um enorme sentido de humor, uma profunda ironia, que é desatacadíssima pelo ousado uso do transporte estrófico (da quinta para a sexta estrofe), o instrumento musical que vem acabar com a esperança do silêncio é um oboé, ora o oboé é o instrumento que simboliza a esperança.
Esta situação é só um exemplo de muitos outros pequenos pormenores do poema que se não tiverem a devida atenção e reflexão, simplesmente não são aproveitados. É um poema que merece e vale a pena reler muitas vezes.
Sem fazer por enquanto mais análises, queria apenas "repetir-me", lamento muitíssimo que o Antonio, faça pouco na poesia e publique ainda menos, agradeço-lhe contudo esta publicaçãozita, agora devo dizer-lhe que já tendo lido toda a obra "Auto-retrato", que é uma lástima que não publique o resto!
Entre muitas mais coisas que queria dizer, analisando quanto à pertença do conjunto este poema é uma Sinédoque antitética, isto é da parte assume o todo, "Todo eu sou música", no entanto é apenas uma das várias secções do Auto-retrato, o que vai contrapor esta ideia, apesar da fracção e de não o ser a parte assume-se como um todo.
ResponderEliminarTambém penso que é interessante atender à simbologia da métrica e ao facto de os recursos estilísticos que eu encontrei serem exactamente o mesmo número que o dos versos.
Excelentíssimo Antonio:
ResponderEliminarMaravilhoso este seu poema, citando o caríssimo Artur "delicioso", não me canso de o ler, é mesmo musical! Considero particularmente interessante a sua escolha, que mesmo tratando-se dum poema sobre música, não seguiu aquilo que por natureza é considerado musical num poema: as consonâncias rimáticas, penso que conseguiu com isso colocar a música num patamar superior ao do "soa bem", superou a ideia dos jogos de sons, privilegiando os "jogos de ideias" e a dinâmica, escrevendo o poema mesmo como se fosse uma música, não aproveitando a musicalidade das palavras, mas sim o seu sentido musical. Criou uma música puramente idealista! E o irónico é que é uma música sentimental, então desta forma a sua alegoria conseguiu subjugar os sentimentos às ideias.
É de facto interessante lê-lo várias vezes, a riqueza permite que as segundas e terceiras leituras sejam tão interessantes como a primeira.
Está de parabéns!
A Bem da Nação!
Caríssimo António,
ResponderEliminarDesde já, as minhas mais sinceras felicitações! O poema traduz, muitíssimo bem, o enorme talento que possui para a escrita. Não poderei, de forma alguma, nem quero, fazer-lhe uma análise técnica, pois uma já foi brilhantemente feita pelo caríssimo Artur da Silva Monteiro Leitão Rodrigues.
Porém, não pude deixar de reparar no enorme paradoxo, certamente proveniente da sua grande humildade, quando diz que não se considera poeta e depois nos presenteia, com esta magnífica obra de poesia. Com uma qualidade extra-oridinária, com um tema ainda mais, e com uma classe sem descrição - absolutamente típica da sua pessoa.
Viva a Pátria Portuguesa,
Viva Portugal,
Viva a Língua por Camões imortalizada!